sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um fim de semana em Mosqueiro - Por Ju Moonwalker


Desde que fui ao encontro de minhas raízes no início do ano, em uma viagem de férias com a família para o Pará, que minha prima paraense falava em irmos conhecer a Ilha de Mosqueiro. Quinze dias passei com meus pais em janeiro, e o tanto de gente para rever, e o tanto de coisas para fazer, acabaram não permitindo inclui-la em nossa programação.

Mas eis que, graças a uma viagem a trabalho para Belém, surgiu a oportunidade de dar uma esticada durante o fim de semana. E é claro que minha prima, bem entendida nos assuntos das terras papachibés (diz-se papachibé de uma mistura de água e farinha, ou dos nascidos em Belém do Pará), não poderia me deixar voltar à capital sem conhecer a tão famosa ilha.

E para lá fomos, a turma toda, incluindo ela, seu marido e dois filhinhos e meu tio. Mesmo pegando um pouco de trânsito em Belém – impressionante como mesmo nos fins de semana o caos em que vêm se transformando as grandes cidades dá o ar de sua graça – em pouco mais de uma hora chegamos, ainda a tempo de pegar o pôr-do-sol na Praia de Murubira.

Mosqueiro é um distrito administrativo de Belém, composto por várias praias. É limitado ao norte pelo Rio Pará e pela Baía do Guajará, a oeste pela Baía de Santo Antônio, ao sul pela Baía do Sol e a leste pelo Furo das Marinhas, que separa a Ilha do continente.

Trata-se daquele tipo de lugar que, fora das épocas em que a multidão de turistas acaba dissipando um pouco a magia nativa, passa uma sensação de paz e plena sintonia com a natureza. Combinação perfeita entre a imensidão de mar e a doçura das águas de rio.

Depois de nos despedirmos do sol, nada como andar na pracinha – daquelas cheias de criança, com um coreto, igrejinha e até um banco de praça como esse da foto aí embaixo, refletindo o bom humor paraense.


Em seguida, saborear um delicioso tacacá e ficar com os lábios dormentes do jambu, folhinha típica do Norte do país, utilizada na preparação de vários pratos da culinária paraense.


Distanciando-me um pouco da turma e explorando sozinha os espaços da praça, fui até longe para registrar a vista da ilha à noite. Então parei diante de uma placa onde se contava sobre a origem de seu nome: “Mosqueiro” vem de “moquear”, que na linguagem ribeirinha significa a “técnica de tratar os peixes para venda”. Daí “Moqueiro”, que acabou virando “Mosqueiro”, para facilitar a pronúncia.
Findo o passeio pela praça, seguimos todos para a famosa e tradicional sorveteria Cairu, onde pedi minha casquinha predileta: pavê de cupuaçu!

Depois de passar em casa, tomar um banho e descansar, eu e minha prima ainda tivemos energia para mais um passeio noturno. A primeira tentativa de parada foi no Hotel Farol, onde tínhamos a esperança de conseguir sentar para petiscar algo e tomar uma cerva. Infelizmente não foi possível, mas ficou a promessa de voltar no dia seguinte para almoçar, tamanho o encantamento nosso com a vista do hotel e sua beleza.


Sendo assim, finalizamos o sábado com uma boa “prosa terapêutica” em um bar, regada a Skol e isca de peixe, como não poderia deixar de ser.

Já no domingo, saímos de casa na hora do almoço e fomos direto para o Hotel Farol, onde pedimos uma caldeirada de filhote, meu peixe de rio predileto. Durante a espera pelo prato, aproveitei para fazer alguns registros do hotel, embora eu sinceramente acredite que eles não consigam transmitir a energia do lugar.




Os móveis, os quadros, a decoração, tudo emana um certo ar nostálgico e familiar, que inebria especialmente os mais sensíveis – e cancerianos –, como eu. Em uma das paredes, deparei-me com uma matéria de jornal sobre o hotel, emoldurada em 3 quadros. Por ela descobri que seus mentores foram o casal português Zacharias Mártyres e Adelaide de Almeida, que na década de 30 resolveram transformar a casa de veraneio em um hotel, de estrutura similar a de um navio. Mesmo sem conhecer dona Adelaide, admirei em silêncio a força daquela mulher, que veio a falecer aos quase 100 anos, em 2007, tendo criado 15 filhos, e mais os sobrinhos e agregados.

Na reportagem, realizada quando ela ainda era viva, dona Adelaide falava sobre o quanto sentia falta dos ares de cassino, dos bailes outrora realizados. "Antigamente as pessoas viam aqui e passavam no mínimo 15 dias. Hoje ficam 3, 4 dias no máximo", recordava. Felizmente os filhos deram continuidade à obra dos pais, que hoje conta com 3 prédios, dos quais sem dúvida o mais charmoso é aquele em formato de navio.

Depois de devorar a caldeirada e de prosear por um longo tempo com meu tio, ainda tentei um momento solitário de reflexão sobre as pedras, interrompido, adivinha pelo quê? Aliás, por quem? Pelos salva-vidas, que foram me resgatar: "Moça, não pode ficar aí não, a maré está enchendo"!!! hahaha Com essa, mais um mergulhinho de leve, e "hey, ho, let's go"!!!

Pra continuar, mais um stop na sorveteria Cairu e em um bar em Mucubira, que vende uns pasteizinhos de camarão e carne ma-ra-vi-lho-sos.


E pra finalizar, mais um pôr-do-sol, dessa vez na Praia do Paraíso. Os rastros dourados na areia, o azul do céu expandindo a visão, a doçura das ondas amaciando a pele, os resquícios de floresta perdidos no horizonte do olhar. Na certeza de que Mosqueiro reacendeu em mim aquela chama que a rotina teima em querer sufocar, despedi-me em gratidão com o Deus, com o universo e com todos os que me proporcionaram vivenciar a magia daquele lugar.



Encerro meu relato, com o trecho de um livro registrado em uma placa, na entrada do Hotel Farol:


História e Personagem
Maria Lúcia Medeiros
[do livro "Quarto de Hora"]
Outra noite e uma esfera azulada cintila à minha frente. Impossível é
ver daqui onde me encontro o contorno dos bálticos países, nem mares,
nem as pequenas ilhas Falkland.
Meus óculos descansam num livro aberto ao meu lado. Talvez eles
tornassem mais nítido algum promontório e eu pudesse distinguir a faixa
de terra apontando para um farol incrustado em pedras semipreciosas.
Obrigo-me daqui deste lugar onde recosto corpo e memória a ver
com nitidez um oceano que não preciso nomear a fustigar de espuma as
minhas costas, a dividir-me, a separar-nos, espaço que eu inauguro nesta
noite para que meu escaler com marujos arrojados possa fazer a travessia
e me levar.
Nesse espaço a memória inscreve, pela ausência, história e
personagem, a passagem nossa, nossa ida e nossa vinda, trajeto e rota que
vai do lugar de sombra deste quarto à esfera azulada e mítica de onde
deito olhar de dor para narrar-te.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ilhada aqui Ou Esperando estrela cadente.

Tô Só
Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.
(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)

* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Pernambucana se perde no Parque da Cidade - by Polly Cartesiana

Essas coisas só acontecem com uma pernambucana perdida no Parque da Cidade!

Lá vai:

Ontem, resolvi ir caminhar sozinha no Parque da Cidade, que é “aqui atrás de casa”! Como pontualidade não é o meu forte, eu me programei pra sair de casa às 16 horas, mas na realidade, só consegui sair às 17 horas mesmo!
Fui até o portãozinho que tem aqui com condomínio, que por sinal, o cadeado estava aberto.
Segui para o Parque.

Atravessei uma pontezinha que tinha lá – detalhe: nunca tinha ido pra esse lado.
Enfim, com o meu bom óculos escuros, saí andando por “essa terra nunca antes explorada”!
Fui andando... andando... descobri que o Parque tem muito mais coisas do que o Parque de Diversão, a Funfarra, o Kart e algumas barraquinhas!

Lá tem espaço pra fazer churrasco, futebol, máquina para ginástica... enfim.
Continuei andando – gente, nunca andei tanto na minha vida!

E nada de dá a volta na porcaria do parque.

Pense que eu andei e simplesmente anoiteceu! E eu sem o meu óculos de grau! Comecei a ficar desesperada pq vivo ouvindo umas histórias sobre o Parque da Cidade e eu não conseguia ler nada, né!
Aí parei num lugar pra tomar uma água de coco e ia até perguntar, mas nesta barraquinha tinha tantos “bebuns” que eu não ia “anunciar” que estava perdida, né! Resolvi então ir pro outro lado, ou melhor, voltar, pq estava ficando escuro mesmo!

Andei... andei... e quando vi, tinha um rapaz na bicicleta, não era bonito não, mas ele tinha a solução do meu problema: UM APARELHO DE GPS!!!

Gente, pense que eu fiquei feliz!

Ele me mostrou onde eu estava, mostrou pra onde eu queria ir e disse que eu continuasse na mesma direção que eu estava antes e só precisava caminhar mais 1 km.
Quase que dava um beijo&abraço no carinha!

Voltei!!! Achei a pontezinha que era o meu “marco inicial”.

Mas a história ainda não acabou, pq o portão estava fechado e eu não ia dá toda a volta naquela escuridão, né!
Fui andando pelo portão do lado de fora, rsrsrs, até a altura da portaria do prédio ao lado do meu (deixa eu explicar esta parte: eu moro no penúltimo prédio e a portaria é virada “pra trás”). Pense na cena eu gritando pra chamar o porteiro pra ele abrir o portão pra mim! Acho que todos os meus “vizinhos” me acharam uma “louca”, né!

Enfim, esta foi a minha aventura!!!

Um fim de semana em Floripa - relato de Karen Amazona

Mesmo a trabalho, mesmo na correria, se pode sim aproveitar muito de uma viagem. Mesmo que se tenha que ter com lema a frase "dormir, pra quê".
Assim, eu diria, que foi minha viagem a Florianópolis dias atrás.
Ainda no aeroporto, tive a oportunidade de encontrar um colega que também ía a trabalho a Florianópolis e planejava, por conta própria, prorrogar sua estada para escalar nos arredores da Ilha.
Escolhi pegar o último vôo que a empresa me ofereceu para poder ganhar tempo no trabalho e preparar tudo o que tinha que estar pronto para o outro dia, em Floripa. Mas para meu total desespero, a bateria de meu computador acabou logo no início do vöo e eu tive de ficar até umas 2h da manhã, no hotel, trabalhando.
Fiz tudo o que tinha de fazer em termos profissionais, dei baixa no hotel, coloquei o mochilão nas costas e tratei de ligar para uma amiga que há 15 anos eu não via, mas que tinha notícias de estar morando em Floripa! O plano inicial era encontrá-la e depois me hospedar num albergue.Pensava comigo que se de repente eu não conseguisse encontra-la, ou, se ela não me reconhecesse e não quisesse saber como eu estava, o que fazia, enfim... seguiria sozinha e feliz, do meu jeito mesmo, pela bela e aprazível ilha. Mas antes de seguir sozinha, queria encontrá-la. Sabia que nosso encontro poderia ser emocionante o suficiente para acabar não ficando em albergue nenhum, mas curtindo tudo o que ela quisesse me mostrar!

Esperei por ela em frente a um supermercado do Centro da cidade de Florianópolis e lá, já me deparei com algo muito interessante, principalmente para quem tem cachorro e pouco tempo para levá-lo para passear.
Eu não tenho cachorro. Mas penso que se tivesse, gostaria de levá-lo para passear aproveitando que estou na rua para fazer outras coisas que preciso fazer na rua, como compras no supermercado, por exemplo!
Pois bem. Já cansei de ver cachorro abandonado, amarrado no poste em frente ao mercado, e dono fazendo compras com o coração na mão, com medo de que alguém leve embora seu cachorro!!

Em Floripa, esse supermercado do qual eu esperava minha amiga, teve a brilhante idéia de disponibilizar uns canis para os pets de seus clientes, com chaves e cadastros de dono e animal de cada cliente. Super organizado e super bacana! Em cerca de 20 minutos de espera, vi uns 3 cachorrinhos diferentes e todos os donos satisfeitos com a criativa solução encontrada para se fazer compras com mais tranquilidade.
Espero que outros empreendimentos do comércio tenham essa idéia também, principalmente aqui em Brasoca!



Encontrar com Lígia Maria (minha amiga que há tempos não via) foi mais do que mágico porque fez com que eu me encontrasse comigo mesma, com aquela Karen que fui aos quinze anos, e que, segundo ela, continuo sendo em essência. Eu e Lígia nos encontramos conosco mesmas. Algo que faz com que eu recomende sempre que não tenhamos receio de procurar por aquele(a) amigo(a) que há tempos não vemos. Vale sim, muito à pena! Lígia me levou para assistir ao show de sua banda (Buarqueando) em um bar chamado Armazém Viera, ainda naquela noite. Fomos (eu, seus amigos, sua família) e gostei tanto do lugar que recomendo!


Primeiro porque ele foi construído sobre uma antiga casa da cidade, que tem anos de história e era sim, um antigo alambique da ilha. Segundo, porque aquela cachaça que abastecia os primeiros açorianos que colonizaram o local, ainda está sendo produzida até hoje e além de poder ser degustada no bar, pode ser comprada em garrafas nos mais diversos estilos e qualidades. Muito bom!
Lígia Maria, minha amiga, sempre cantou muito e continua cantando. Tudo foi simplesmente maravilhoso. Mas ainda curiosa, como sempre, fui atrás de maiores informaçoes porque o dia seguinte seria totalmente meu e de meu caminhar (explorar) pela Ilha.


E para a minha sorte, ainda no Armazém Viera, eu encontrei um Postal Publicitário falando sobre um tal de "Roteiro Turístico do Parque Arqueoastronômico Fortaleza da Barra da Lagoa" e pude pesquisar melhor sobre essa iniciativa no outro dia. Só isso, já renderiam diversas páginas de relato, portanto, me limito a indicar o site http://www.imma.cjb.net/ para maiores informações por parte dos curiosos como eu. Só digo uma coisa: vale a pena conhecer! É super interessante e cheio de suspense do tipo "acredite se quiser"!! (rs)

Na sexta-feira, fui encontrar com minha amiga só à noite, depois de 22h e ficamos até as 4h da manhã colocando a conversa de 15 anos em dia. É claro que isso nem foi o começo, mas enfim... deu para nos atualizarmos sobre nossos assuntos (rs). Sábado, um dia pela Ilha. Mirante. Praias mais famosinhas (Mole, Joaquina, Barra da Lagoa, etc.) e sul da Ilha (Açores). À noite, nos Açores, tive a super, querida e especial visita de meu pai e resolvemos comer e beber em outro local que eu, com certeza indico a todos os mochileiros e viajantes de plantão ou não: Arantes! No Pântano do Sul. Uma pena que eu estava sem máquina fotográfica na hora para poder registrar o local. Ele fica de frente para o mar, também é um lugar tradicional. Também produz pinga (o povo de lá parece gostar muito disso, né?!) e todos podem deixar um recado, um bilhete, colado em qqr lugar do bar. O mais interessante é que a pinga deles fica à disposiçao. De graça. Você pode tomar quantas vezes quiser, em uns copinhos de barro que eles disponibilizam... muito bacana!! Mas é claro que eu, meu pai e minha amiga Lígia, que não nos cabíamos em nós mesmos de tanta alegria pelo reencontro de anos, tomamos uns 10 daqueles copinhos e saímos do bar rindo e cheios de "hic" (sabe aquele solucinho de bebado? esse "hic" é uma tentativa de representa-lo). O namorado da Ligia e o Totó, amigo de meu pai, que nos levaram para casa no fim da madrugada (rsrsrs). Mas antes, passamos no caixa e descobrimos que eles também vendiam garrafinhas daquela "iguaria" que nos foi oferecido gratuitamente. E um segredo que poucos sabem é que, se vc resolver levar o seu copinho de barro com vc, ninguém corre atrás pedindo para devolver. Ao sairmos, sorrateiramente com os copinhos nas mãos, acabamos descobrindo que isso tbem é tradição!! Eles não nos oferecem, como por exemplo, o fazem os donos do Bar do Alemão, no centro historico de Curitiba. No Bar do Alemão, quando vc pede um submarino (uma bebida tradicional do bar), os garçons te avisam que vc pode levar o canequinho para casa. No Arantes, não avisam, mas vc também pode levar. E todos levam!! É tradição!!!

Então, pessoas, tudo isso em dois dias prorrogados por conta própria de uma viagem de trabalho. Toda essa tradição e locaizinhos novos e desconhecidos de muitos turistas por conta de um reencontro com uma amiga que já é quase que nativa da Ilha. Nada como buscar as verdadeiras fontes. Nada como explorar o que é do cotidiano de quem vive no lugar visitado.

Saudades eternas de Floripa...

domingo, 13 de setembro de 2009

De como começamos a contar estrelas...


Quando já dissipada a nuvem de barro vermelho, avistamos as primeiras luzes da cidade. Aliás, cidade não. Povoado! Uma Vila! A Vila de São Jorge, no Coração da Chapada. O ruído ainda confuso logo se transformou na indefectível percussão do maracatu. Nosso caroneiro, ainda atordoado com as loucuras femininas, mal se despediu e já tomou seu rumo, perdendo-se na multidão.

E quanto a nós, batemos um corridão até a pousada. Depois de uma maquiadinha daqui, uma trocada de roupa acolá, partimos para o Festival de Culturas Populares de São Jorge, que, em seu último fim de semana, fazia o povoado fervilhar de bichos-grilo e loucos do bem, de todas as espécies. A energia de Lia de Itamaracá me enfeitiçou e não resisti a logo me embrenhar nos labirintos da ciranda por ela entoada. Poucas vezes na vida senti emoção tão poderosa.

Como cantava Miss Lauper, "girls just wanna have fun"! Acabada a ciranda, a noite apenas recomeçaria, na Casa do Cavaleiro São Jorge, onde estava marcada a apresentação de um grupo de música regional, e destino certo para os dispostos a adentrar a madrugada. Entre bate-coxas e dá-lhe cerveja, figuras e "gatrinhos", assim cumprimos a promessa de infinita diversão, enquanto esta durasse. Teve uma que até "pagou paixãozinha", embora seu espírito cartesiano não lhe permita admitir hehe.

Quase de manhã, hora do toque de recolher e de recarregar as baterias para o longo dia seguinte, de repente alguém se dá conta:

- A Ju!!! Cadê a Ju!!!????

Acende-se o alerta vermelho! Busca por todos os cantos e becos. Lugar diferente, gente doida, será que dá pra confiar?Uma delas tranquiliza:

- A Ju, a Ju tá beeeeemmmm...

Ainda assim, eis que a Cartesiana saca o celular e arrisca uma tentativa de chamada, que (milagrosamente, em se tratando da Ju), enfim, é atendida:

- Ju, Juuuuu, onde você está???
- Eeeeu?? Eu tô aqui...
- Você tá bem, Ju???
- Eu? Eu tô beeeem, sim...
- Tá bem aonde???
- Eu tô aqui... contando estrelas...

Vai uma caroninha? (Está certo disso?) !

Imagine-se em uma estrada perdida no meio do nada. Para melhorar um pouco, mas não muito, no meio do cerrado. Você está em um carro com alguns amigos, que de repente quebra. Daí avista um farol ao longe e pensa em arriscar um pedido de carona. Acena para o carro, que passa um pouco, mas acaba voltando. A janela se abre, você dá de cara com quatro garotas e lança a tentativa.
Pedido aceito, dá um tchau com um sorrisinho sarcástico para os que ficaram e entra no veículo.

Para quebrar o silêncio, começa a puxar assunto.

– De onde vocês são?
– Ihhhhh, cada uma é de um canto! – uma responde.
– Como se conheceram?
– Ah é uma longa história! – a outra completa.
– O que vocês fazem?

Alvoroço generalizado. Você não poderia imaginar que seria assim.

- Ela é de Saúde!
- Ela é de Humanas!
- Eu sou de Exatas!
- Não, você é de Humanas!!!
- Não, eu sou de Exatas !!!
- Humanaaaaaaas!!!
- Exataaaaaaaas !!!
- Humanas!!!!
- Exatas !!!!

- Não, não, tudo errado!!! Tem que olhar a tabela do CNPQ!!! A tabela do CNPQQQQQQQQ!!!!!!!

Você já se arrependeu até o pescoço de estar no meio de quatro loucas, quando o carro, já a 130km/hora, sai do asfalto para a estrada de terra. Pensa em abrir a porta e sair correndo, mas quando se dá conta só se vê dentro de um carro a mergulhar num breu de barro vermelho...

Parabéns, você acabou de pegar uma carona para a Chapada com as Garotas que adoram Contar Estrelas !